Muitas mentiras foram criadas e são mantidas pela humanidade em nome do amor: religião, família, casamento, trabalho, Estado, ideologia, enfim, tudo o que a imaginação humana pôde criar para justificar o que há de mais puro e digno dentro de seus complicados e sofridos coraçõezinhos. Chega a ser engraçado que, aliás, até mesmo a representação simbólica do amor – no caso, o coração –, advenha de pura imaginação, já que sabemos que o sentimento em si não possui ligações com o órgão responsável por bombear o sangue pelo corpo. Mas o mais hilário é pensar o amor em seu cerne, naquele amontoado de sensações (euforia, êxtase, ansiedade, felicidade, libido, etc.) que acontecem dentro da gente ao qual me meto a elucubrar aqui. Ele habitualmente se principia baseando-se em paradigmas sociais, que acabam por ditar quais são as pessoas ideais pelas quais devemos no sentir atraídos. Ou seja, o pontapé inicial do amor, ao qual adquirimos o hábito de alcunhar como paixão, geralmente surge com base nos padrões que a TV, a moda e a publicidade, entre outros, nos ditam. Ah ah ah! Mais uma farsa! E não seja tolo de negá-lo, caro ser sensitivo e racional. Sua existência é inegável e inevitável. O problema é compreendê-lo. Contudo, raciocinar a seu respeito torna-o mais transparente e, consequentemente, mais engraçado. Só não seja ingênuo de achar que, desta forma, ele passará a ser o sentimento pleno por excelência, a não ser que você queira fingir.Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Representação
Muitas mentiras foram criadas e são mantidas pela humanidade em nome do amor: religião, família, casamento, trabalho, Estado, ideologia, enfim, tudo o que a imaginação humana pôde criar para justificar o que há de mais puro e digno dentro de seus complicados e sofridos coraçõezinhos. Chega a ser engraçado que, aliás, até mesmo a representação simbólica do amor – no caso, o coração –, advenha de pura imaginação, já que sabemos que o sentimento em si não possui ligações com o órgão responsável por bombear o sangue pelo corpo. Mas o mais hilário é pensar o amor em seu cerne, naquele amontoado de sensações (euforia, êxtase, ansiedade, felicidade, libido, etc.) que acontecem dentro da gente ao qual me meto a elucubrar aqui. Ele habitualmente se principia baseando-se em paradigmas sociais, que acabam por ditar quais são as pessoas ideais pelas quais devemos no sentir atraídos. Ou seja, o pontapé inicial do amor, ao qual adquirimos o hábito de alcunhar como paixão, geralmente surge com base nos padrões que a TV, a moda e a publicidade, entre outros, nos ditam. Ah ah ah! Mais uma farsa! E não seja tolo de negá-lo, caro ser sensitivo e racional. Sua existência é inegável e inevitável. O problema é compreendê-lo. Contudo, raciocinar a seu respeito torna-o mais transparente e, consequentemente, mais engraçado. Só não seja ingênuo de achar que, desta forma, ele passará a ser o sentimento pleno por excelência, a não ser que você queira fingir.Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
Indoméstico
Iniciando mais um desesperado verso sorumbático
Incito impropérios contra o colapsante mundo apático
Involuntariamente, devido ao hostil processo traumático
Instigado a todos forçosamente por um ditame patético
Instinto, diz o reacionário; injusto, diz o cáustico
Incauto quem fecha os olhos diante do regime caótico
Incendiando o potencial humano de modo despótico
Onírico
Beijar-te...
Ouso-me conjeturar a respeito
No escopo frio da ilusão mais doce
Jaz o encanto que me alegra viver
E em meio a finos arroubos de amor
Eis que se torna límpido o espelho
Que reflete a onerosa realidade
De ter que viver sem você.
Qualquer ensejo de realidade
Que me arranca do doce devaneio
Traz de volta todo o austero fardo
De ter que suportar mais um dia
Sem você.
Quinta-feira, 12 de Junho de 2008
Subterfúgio apostático amoral (parte III)
Epílogo
Domingo, duas horas da tarde. Juliana atende o telefone que o acabara de acordar.
— Alô...
— Ju, sou eu.
— Eu quem?
— A Ritinha.
— Ah. Fala...
— Ju, minha cabeça...
— É, a minha também está um caos.
— Não é simples assim...
— O que mais?
— Ressaca, dor de cabeça, caganeira e na boca aquele gosto pestilento de chorume misturado com pus e diarréia de gatinho doente...
— Alô...
— Ju, sou eu.
— Eu quem?
— A Ritinha.
— Ah. Fala...
— Ju, minha cabeça...
— É, a minha também está um caos.
— Não é simples assim...
— O que mais?
— Ressaca, dor de cabeça, caganeira e na boca aquele gosto pestilento de chorume misturado com pus e diarréia de gatinho doente...Juliana larga o telefone e vai às pressas ao banheiro vomitar. Enquanto isso Ritinha fica perguntando o que está acontecendo. Juliana volta ao telefone, diz alguns impropérios à sua amiga, que dá risadas com a situação. Depois combinam de sair pra tomar algumas cervejas com Cris e suas primas, já que elas vão embora naquele dia.
Subterfúgio apostático amoral (parte II)
Interlúdio
Sábado à tarde. De bicicleta, Ritinha passa por um botequim, compra cigarros e vai à casa de sua amiga Juliana.
— Olá, dona Rita de Cássia!
— Vá se foder!
— A que devo a honra da visita?
— Ah, eu fui comprar cigarros, aí resolvi dar uma passada aqui. Tem alguma coisa pra beber?
— Com ou sem álcool?
— Primeiro sem, pois estou com sede. Depois com.
Ambas entraram na casa, que possuía uma entrada simples, porém bela, com um caminho sinuoso que levava até à porta, rodeado por flores multicoloridas. Do lado esquerdo do caminho, um banco de praça com um pequeno poste de luz ao lado e uma frondosa árvore de porte médio; ao lado direito, uma grande estátua desgastada pelo tempo de uma galinha carijó usando óculos de aviação, calçando pantufas em formato de ursinho, um colar havaiano no pescoço e segurando um guarda-chuva com o bico.
Ao entrar, cansada pelo longo itinerário percorrido de bicicleta, Ritinha joga-se no tapete ilustrado com uma imagem de Muhammad Ali. Juliana grita da cozinha: “Você quer água, Coca, cerveja ou vinho?”, ao que Ritinha responde: “Eu queria vinho, mas tá muito calor. Traz a água e a cerveja.”
Entra Cotovelo, o gato caolho da raça sphynx de Juliana.
— Miau!
— Oi, feiosinho! – comenta Ritinha, ao pegar e abraçar o gato. Que saudade que eu estava de você.
— Miau.
Juliana traz as bebidas e liga o aparelho de som. Faith no More começa a tocar e logo em seguida Ritinha elogia a escolha da amiga.
— Daqui a pouco vamos dar um pulo no mercado? – pergunta Juliana. Tenho apenas duas latas de cerveja na geladeira e quase nada pra comer.
— Vamos, aí a gente aproveita pra comprar uns petiscos e uns copos dignos pra se tomar cerveja. Copo de requeijão chega a ser heresia!
— Desculpe. É que na última festinha aqui em casa quebraram as últimas três tulipas que restavam.
— É, eu sei. Eu quebrei duas, mas não no mesmo dia.
— Efeitos do álcool... Mas ultimamente você até que tem se comportado bem.
— Você também, Ju. Estou impressionada! Decidiu assumir de vez o papel da dona de casa solteira, independente e responsável?
— Não sou fanática, mas ando me esforçando pra manter as coisas na linha.
— Veremos se esse esforço descomunal se mantém ainda hoje.
— Ué, por quê?!
— Chuchu, hoje é sábado! E como se isso não bastasse, tem festinha na casa da Cris, e as primas delas estão aí.
— Putaqueopariu! Fodeu! E vai todo mundo do pessoal?
— Provavelmente sim – responde Ritinha.
— Amanhã será mais um domingo daqueles...
— Ressaca, dor de cabeça, caganeira e na boca aquele maravilhoso gosto de chorume misturado com pus e diarréia de gatinho doente, daquelas bem moles e amarelas, cheia de vermes, parecendo um prato frio de Miojo.
— É impressionante como a sua criatividade para a escatologia divaga pelos meandros mais obscuros da mente humana. Admiro seu trabalho e sou sua fã.
— Obrigada! Tenho treinado muito.
— Às vezes eu tenho a sensação que estou vendo um filme do John Hughes ao conversar com você – comenta Juliana.
— Verdade?! – pergunta Ritinha com admiração e um certo orgulho.
— Isso te faz feliz?
— Claro! John Hughes é um mestre!!
— Mestre?! Ah, Ritinha, faça-me um favor, né? Ele até que tem uns filminhos legais, mas fez muita porcaria!
— Por exemplo...?
— Flubber, Beethoven, Dennis O Pimentinha, Esqueceram de Mim, 101 Dálmatas, entre muitos outros lixos.
— É, mas ele apenas fez o roteiro desses filmes. E mesmo assim tem coisas boas, como A Garota de Rosa Shocking e os três Férias Frustradas.
— O de Natal é bem meia-sola.
— Não é dos melhores, mas até que dá pro gasto. No entanto, os dois primeiros são clássicos absolutos do verdadeiro humor Sessão da Tarde. Mas isso não vem ao caso. A genialidade dele só se manifesta integralmente quando ele dirige e roteiriza. Gatinhas e Gatões, Clube dos Cinco, Mulher Nota 1000 e Curtindo a Vida Adoidado são clássicos que marcaram a minha adolescência! Nunca se atreva a falar mal dessas pérolas cinematográficas!
— Nossa, tudo bem! Esses são legais mesmo. Mas ele dirigiu e roteirizou Antes Só Que Mal Acompanhado e Ela Vai Ter um Bebê, que não são lá aquelas coisas, além de Quem Vê Cara Não Vê Coração e A Malandrinha, que são duas enormes bostas.
— Pra quem não curte muito o cara até que você conhece bem a filmografia dele, hem?
— Eu já fui adolescente e, como toda boa garota com aparelho nos dentes, espinhas na cara e peitinhos crescendo, eu também assistia Sessão da Tarde – argumenta Juliana.
— Tá, mas todo mundo tem direito de cometer suas gafes. Até o Kubrick tem coisas mais ou menos.
— Ah, você está querendo comparar o John Hughes ao Stanley Kubrick?!?
— Não, pois ambos possuem estilos completamente distintos. Só estou querendo fazer jus ao nome deste grande diretor que revolucionou o cinema nos anos 80s. Já te contei a minha teoria sobre ele?
— Ai! Lá vem...
— Meu, seja fria e racional. O John Hughes simplesmente reinventou a maneira de se fazer cinema. Ele criou um novo estilo que foi seguido por gerações e gerações: os teen movies.
Juliana vira os olhos e faz cara de desprezo.
— Não me venha com essa cara de merda! Você sabe muito bem que existem muitos filmes bons nesse gênero.
— Por favor, continue com a sua teoria.
— Então... Nesse gênero, os personagens são caracterizados de forma bastante estereotipada e sempre são divididos por grupos bem definidos: atletas, nerds, patricinhas, rebeldes, esquisitões, entre outros, cada um seguindo suas premissas básicas, com conflitos interiores e exteriores. Os adultos são sempre os vilões e as minorias são sempre vitimadas e se sobressaem no final, como verdadeiros ídolos, como é o caso dos rebeldes. As maiorias, no caso os atletas e as patricinhas, obtêm a redenção no final, demonstrando arrependimento e unindo-se aos seus “inimigos” – Ritinha faz o típico gesto de aspas com os dedos indicador e médio de ambas as mãos –, que são os outros grupos citados. É a hora que um figurante se levanta e começa a bater palmas lentamente e todos os seguem para formar uma ovação desenfreada.
— Certo. Mas até aí você só fez uma análise do padrão dos filmes para adolescentes. Onde fica a sua teoria nisso tudo?
— Calma, Juli! Tenha paciência que chegarei lá, principalmente se eu não for interrompida.
— OK, só que a cerveja acabou e eu gostaria muito de tomar mais umas.
— Então vamos indo ao mercado que eu continuo a história pelo caminho.
Ambas seguem a pé para o mercado, que ficava a poucos quarteirões da casa de Juliana. Ritinha prossegue, empolgada:
— Pois bem. Esse é o padrão dos teen movies tradicionais. Só que John Hughes quebra genialmente com isso. Em Clube dos Cinco, por exemplo, existem estereótipos, mas não existem grupos, portanto os personagens são obrigados a se inter-relacionarem, e a rivalidade padrão inicial torna-se um diálogo sobre frustrações e anseios de cada um que os leva a uma reflexão e a um entendimento mútuo, mostrando aos jovens que os padrões e os preconceitos não devem ser seguidos. Para nós isso pode parecer bobo hoje, mas quando se é adolescente, muita porcaria pode ser digerida sem ser percebida.
— É, pensando por esse lado...
— E tem mais! Esse conceito é bem antigo. Ocorre, por exemplo, em O Senhor dos Anéis. Frodo é o herói por acaso e vem de uma minoria, tanto que os cavaleiros de Rohan e os Ents desconheciam a raça dos hobbits. No começo eles são desacreditados, porém tornam-se grandes heróis e adquirem o direito de viver junto com as raças nobres. Todas as raças são estereotipadas e há conflitos entre elas, como o que ocorre entre anões e elfos, humanos e orcs, e por aí vai. Hughes utiliza o mesmo conceito, só que trazendo para a vida real e utilizando menos maniqueísmos. O John Bender, de Clube dos Cinco, por exemplo, inicialmente é retratado como um desajustado, delinqüente, até mesmo maligno, mas isso se desfaz ao longo da história, já que as amarguras dos personagem são descritas para desfazer seus paradigmas e justificar suas atitudes. Em seguida o mesmo acontece com os outros quatro personagens, que vão pouco a pouco revelando seus mais profundos segredos e, sempre, responsabilizando seus pais, já que são apenas adolescentes e, até então, apenas seguiram diretrizes, sem muito espaço para opinarem a respeito de suas próprias vidas. Tá bem gelada essa cerveja?
— Sim, tá bem gelada – Juliana responde após testar a temperatura com as mãos. Ritão, não é que essa sua teoria é interessante mesmo?
— E o momento da conciliação ocorre de forma politicamente incorreta em se tratando de um filme para adolescentes: com os cinco jovens que estavam de castigo fumando maconha na biblioteca da escola! Todos se divertem, abrem seus corações e ali começa a surgir uma grande empatia entre eles, dando origem, até, a um relacionamento amoroso entre os paradoxos: o rebelde com a patricinha e o atleta com a esquisitona. Percebe a semelhança entre Gimli e Legolas? Só que neste último caso só há o sentimento fraternal, é claro. O nerd fica sozinho para escrever a redação que todos deveriam fazer como parte do castigo, porém ele o faz em nome de todos, resultando em um grande desabafo coletivo, assim como o livro iniciado por Bilbo, continuado por Frodo e concluído por Sam.
— Só que, nesse caso, o livro foi escrito por três pessoas diferentes. Você prefere amendoim japonês ou amendoim normal?
— Japonês. Sim, mas com o mesmo propósito de contar uma aventura e registrar um desabafo sobre um grande acontecimento em suas vidas. O adulto, diretor Vernom, sai como perdedor, já que o sábado que era pra ser um castigo, acaba se tornando divertido e traz boas novidades às vidas dos alunos em questão. Daí em diante, tudo o que vem é mero pastiche de John Hughes, minha cara.
Ambas voltam para a casa de Juliana e começam a preparação para a festa daquele dia bebendo as doze latas de cerveja e comendo os dois sacos de 200 gramas de amendoim japonês que haviam comprado.
— Olá, dona Rita de Cássia!
— Vá se foder!
— A que devo a honra da visita?
— Ah, eu fui comprar cigarros, aí resolvi dar uma passada aqui. Tem alguma coisa pra beber?
— Com ou sem álcool?
— Primeiro sem, pois estou com sede. Depois com.
Ambas entraram na casa, que possuía uma entrada simples, porém bela, com um caminho sinuoso que levava até à porta, rodeado por flores multicoloridas. Do lado esquerdo do caminho, um banco de praça com um pequeno poste de luz ao lado e uma frondosa árvore de porte médio; ao lado direito, uma grande estátua desgastada pelo tempo de uma galinha carijó usando óculos de aviação, calçando pantufas em formato de ursinho, um colar havaiano no pescoço e segurando um guarda-chuva com o bico.
Ao entrar, cansada pelo longo itinerário percorrido de bicicleta, Ritinha joga-se no tapete ilustrado com uma imagem de Muhammad Ali. Juliana grita da cozinha: “Você quer água, Coca, cerveja ou vinho?”, ao que Ritinha responde: “Eu queria vinho, mas tá muito calor. Traz a água e a cerveja.”
— Miau!
— Oi, feiosinho! – comenta Ritinha, ao pegar e abraçar o gato. Que saudade que eu estava de você.
— Miau.
Juliana traz as bebidas e liga o aparelho de som. Faith no More começa a tocar e logo em seguida Ritinha elogia a escolha da amiga.
— Daqui a pouco vamos dar um pulo no mercado? – pergunta Juliana. Tenho apenas duas latas de cerveja na geladeira e quase nada pra comer.
— Vamos, aí a gente aproveita pra comprar uns petiscos e uns copos dignos pra se tomar cerveja. Copo de requeijão chega a ser heresia!
— Desculpe. É que na última festinha aqui em casa quebraram as últimas três tulipas que restavam.
— É, eu sei. Eu quebrei duas, mas não no mesmo dia.
— Efeitos do álcool... Mas ultimamente você até que tem se comportado bem.
— Você também, Ju. Estou impressionada! Decidiu assumir de vez o papel da dona de casa solteira, independente e responsável?
— Não sou fanática, mas ando me esforçando pra manter as coisas na linha.
— Veremos se esse esforço descomunal se mantém ainda hoje.
— Ué, por quê?!
— Chuchu, hoje é sábado! E como se isso não bastasse, tem festinha na casa da Cris, e as primas delas estão aí.
— Putaqueopariu! Fodeu! E vai todo mundo do pessoal?
— Provavelmente sim – responde Ritinha.
— Amanhã será mais um domingo daqueles...
— Ressaca, dor de cabeça, caganeira e na boca aquele maravilhoso gosto de chorume misturado com pus e diarréia de gatinho doente, daquelas bem moles e amarelas, cheia de vermes, parecendo um prato frio de Miojo.
— É impressionante como a sua criatividade para a escatologia divaga pelos meandros mais obscuros da mente humana. Admiro seu trabalho e sou sua fã.
— Obrigada! Tenho treinado muito.
— Às vezes eu tenho a sensação que estou vendo um filme do John Hughes ao conversar com você – comenta Juliana.
— Verdade?! – pergunta Ritinha com admiração e um certo orgulho.
— Isso te faz feliz?
— Claro! John Hughes é um mestre!!
— Mestre?! Ah, Ritinha, faça-me um favor, né? Ele até que tem uns filminhos legais, mas fez muita porcaria!
— Por exemplo...?
— Flubber, Beethoven, Dennis O Pimentinha, Esqueceram de Mim, 101 Dálmatas, entre muitos outros lixos.
— É, mas ele apenas fez o roteiro desses filmes. E mesmo assim tem coisas boas, como A Garota de Rosa Shocking e os três Férias Frustradas.
— O de Natal é bem meia-sola.
— Não é dos melhores, mas até que dá pro gasto. No entanto, os dois primeiros são clássicos absolutos do verdadeiro humor Sessão da Tarde. Mas isso não vem ao caso. A genialidade dele só se manifesta integralmente quando ele dirige e roteiriza. Gatinhas e Gatões, Clube dos Cinco, Mulher Nota 1000 e Curtindo a Vida Adoidado são clássicos que marcaram a minha adolescência! Nunca se atreva a falar mal dessas pérolas cinematográficas!— Nossa, tudo bem! Esses são legais mesmo. Mas ele dirigiu e roteirizou Antes Só Que Mal Acompanhado e Ela Vai Ter um Bebê, que não são lá aquelas coisas, além de Quem Vê Cara Não Vê Coração e A Malandrinha, que são duas enormes bostas.
— Pra quem não curte muito o cara até que você conhece bem a filmografia dele, hem?
— Eu já fui adolescente e, como toda boa garota com aparelho nos dentes, espinhas na cara e peitinhos crescendo, eu também assistia Sessão da Tarde – argumenta Juliana.
— Tá, mas todo mundo tem direito de cometer suas gafes. Até o Kubrick tem coisas mais ou menos.
— Ah, você está querendo comparar o John Hughes ao Stanley Kubrick?!?
— Não, pois ambos possuem estilos completamente distintos. Só estou querendo fazer jus ao nome deste grande diretor que revolucionou o cinema nos anos 80s. Já te contei a minha teoria sobre ele?
— Ai! Lá vem...
— Meu, seja fria e racional. O John Hughes simplesmente reinventou a maneira de se fazer cinema. Ele criou um novo estilo que foi seguido por gerações e gerações: os teen movies.
Juliana vira os olhos e faz cara de desprezo.
— Não me venha com essa cara de merda! Você sabe muito bem que existem muitos filmes bons nesse gênero.
— Por favor, continue com a sua teoria.
— Então... Nesse gênero, os personagens são caracterizados de forma bastante estereotipada e sempre são divididos por grupos bem definidos: atletas, nerds, patricinhas, rebeldes, esquisitões, entre outros, cada um seguindo suas premissas básicas, com conflitos interiores e exteriores. Os adultos são sempre os vilões e as minorias são sempre vitimadas e se sobressaem no final, como verdadeiros ídolos, como é o caso dos rebeldes. As maiorias, no caso os atletas e as patricinhas, obtêm a redenção no final, demonstrando arrependimento e unindo-se aos seus “inimigos” – Ritinha faz o típico gesto de aspas com os dedos indicador e médio de ambas as mãos –, que são os outros grupos citados. É a hora que um figurante se levanta e começa a bater palmas lentamente e todos os seguem para formar uma ovação desenfreada.
— Certo. Mas até aí você só fez uma análise do padrão dos filmes para adolescentes. Onde fica a sua teoria nisso tudo?
— Calma, Juli! Tenha paciência que chegarei lá, principalmente se eu não for interrompida.
— OK, só que a cerveja acabou e eu gostaria muito de tomar mais umas.
— Então vamos indo ao mercado que eu continuo a história pelo caminho.
Ambas seguem a pé para o mercado, que ficava a poucos quarteirões da casa de Juliana. Ritinha prossegue, empolgada:
— Pois bem. Esse é o padrão dos teen movies tradicionais. Só que John Hughes quebra genialmente com isso. Em Clube dos Cinco, por exemplo, existem estereótipos, mas não existem grupos, portanto os personagens são obrigados a se inter-relacionarem, e a rivalidade padrão inicial torna-se um diálogo sobre frustrações e anseios de cada um que os leva a uma reflexão e a um entendimento mútuo, mostrando aos jovens que os padrões e os preconceitos não devem ser seguidos. Para nós isso pode parecer bobo hoje, mas quando se é adolescente, muita porcaria pode ser digerida sem ser percebida.
— É, pensando por esse lado...
— E tem mais! Esse conceito é bem antigo. Ocorre, por exemplo, em O Senhor dos Anéis. Frodo é o herói por acaso e vem de uma minoria, tanto que os cavaleiros de Rohan e os Ents desconheciam a raça dos hobbits. No começo eles são desacreditados, porém tornam-se grandes heróis e adquirem o direito de viver junto com as raças nobres. Todas as raças são estereotipadas e há conflitos entre elas, como o que ocorre entre anões e elfos, humanos e orcs, e por aí vai. Hughes utiliza o mesmo conceito, só que trazendo para a vida real e utilizando menos maniqueísmos. O John Bender, de Clube dos Cinco, por exemplo, inicialmente é retratado como um desajustado, delinqüente, até mesmo maligno, mas isso se desfaz ao longo da história, já que as amarguras dos personagem são descritas para desfazer seus paradigmas e justificar suas atitudes. Em seguida o mesmo acontece com os outros quatro personagens, que vão pouco a pouco revelando seus mais profundos segredos e, sempre, responsabilizando seus pais, já que são apenas adolescentes e, até então, apenas seguiram diretrizes, sem muito espaço para opinarem a respeito de suas próprias vidas. Tá bem gelada essa cerveja?— Sim, tá bem gelada – Juliana responde após testar a temperatura com as mãos. Ritão, não é que essa sua teoria é interessante mesmo?
— E o momento da conciliação ocorre de forma politicamente incorreta em se tratando de um filme para adolescentes: com os cinco jovens que estavam de castigo fumando maconha na biblioteca da escola! Todos se divertem, abrem seus corações e ali começa a surgir uma grande empatia entre eles, dando origem, até, a um relacionamento amoroso entre os paradoxos: o rebelde com a patricinha e o atleta com a esquisitona. Percebe a semelhança entre Gimli e Legolas? Só que neste último caso só há o sentimento fraternal, é claro. O nerd fica sozinho para escrever a redação que todos deveriam fazer como parte do castigo, porém ele o faz em nome de todos, resultando em um grande desabafo coletivo, assim como o livro iniciado por Bilbo, continuado por Frodo e concluído por Sam.— Só que, nesse caso, o livro foi escrito por três pessoas diferentes. Você prefere amendoim japonês ou amendoim normal?
— Japonês. Sim, mas com o mesmo propósito de contar uma aventura e registrar um desabafo sobre um grande acontecimento em suas vidas. O adulto, diretor Vernom, sai como perdedor, já que o sábado que era pra ser um castigo, acaba se tornando divertido e traz boas novidades às vidas dos alunos em questão. Daí em diante, tudo o que vem é mero pastiche de John Hughes, minha cara.
Ambas voltam para a casa de Juliana e começam a preparação para a festa daquele dia bebendo as doze latas de cerveja e comendo os dois sacos de 200 gramas de amendoim japonês que haviam comprado.
Quarta-feira, 4 de Junho de 2008
Subterfúgio apostático amoral (parte I)
Preâmbulo
O nome dela era Rita de Cássia, mas ela gostava de ser chamada de Ritinha, já que era atéia e, conseqüentemente, detestava santos e o nome que recebera de seus pais, que, aliás, eram criaturas amorfas que nunca se preocuparam com porra nenhuma a não ser com dinheiro e televisão. Ritinha possuía dores e frustrações, mas preferia escondê-las para não parecer sentimentalóide. Sua bebida preferida era vitamina de leite de soja com mamão, banana, maçã, aveia, gérmen de trigo e mel, principalmente nos dias de ressaca – a famosa hangover dos gringos, manja? Ela gostava de beber, é claro, mas o fazia mais por esporte; aliás, esse era o seu único esporte, além das eventuais partidas de sinuca e sessões de sexo casual e descompromissado. Mas será que podemos considerar isso como esportes? Bem, voltemos à nossa protagonista...
Ritinha sua, Ritinha peida, Ritinha vomita, Ritinha defeca, Ritinha chora (sozinha no quarto, acompanhada apenas de alguma boa banda inglesa dos anos 80s), Ritinha goza, Ritinha ri, Ritinha adora Neston e chá mate com leite em pó. Ritinha é uma pessoa normal, mais normal que a maioria dos seres humanos, apáticos, apavorados, apalermados, apressados, apatetados, apedantados, apolíticos, apofáticos, apogâmicos, apolentados, apoquentadores, apossados, apifóbicos – e, por vezes, apívoros, vejam só! –, apodrecidos, aprisionados, apurados, aprendizes, apaixonados, apelidos, apêndices, apostilas e que vivem em apartamentos apertados e, obviamente, são pouco dados a galhofas. Não quaisquer galhofas, mas aquelas que fazem doer o estômago e o maxilar de tanto rir.
Ritinha não é apândrica, mas às vezes gosta de beijar uns peitinhos, principalmente se a garota tiver cabelos coloridos e gostar de Smiths, Echo, Jesus, Siouxsie e Mission. Nada de Madonna e Britney. Ela as odeia por representarem toda a escrotidão da sociedade capitalista fútil e consumista. Prefere a Cyndi. Aquela, sim, é cantora das boas! Ela sempre quis beijar suas peitolinhas – que imagina serem lindas – enquanto brinca com suas madeixas despojadas e multicoloridas.Ritinha gosta de seus dedos, às vezes mais do que gosta dos homens. Eles, os dedos, são diversão garantida, não dão dor de cabeça e não ligam com voz carente pra encher o saco no dia seguinte. E também não desviam o olhar fingindo que não a conhecem. Outra boa utilidade para os seus dedinhos meigos são os origamis. Ela os adora, mas costuma desvirtuar a tradicional arte japonesa criando formas fálicas para depois fotografá-los queimando. Outros métodos podem ser utilizados desde que satisfaçam os eventuais sadismos da simpática rapariga, que ao longo de seus 26 anos nunca maltratou ninguém. Ela prefere ignorar e menosprezar em autodefesa.
Nonsense, humor negro, sarcasmo, crítica, contestação, polêmica, escatologia, ironia, libertinagem, liberdade, cerveja e tetrahidrocanabinol. Esses são seus maiores prazeres e suas maiores armas. Ela os utiliza para se defender do mundo, para tentar entendê-lo, para incomodá-lo, para vilipendiá-lo, tudo transvestido em forma de arte suja, marginal, maloqueira, malcriada, maldita, malevolente, malcheirosa e maledicente, seja com palavras, rabiscos, fotografias, sons ou gritos.
Ela possui um seleto grupo de amigos, todos figuras pitorescas para uma sociedade abobada que só consegue olhar para o próprio umbigo imundo e fétido. Passatempos preferidos: boteco & cerveja, filme & vinho, show & tudo-o-que-pintar-pela-frente. A mistura aleatória desses elementos também é bem-vinda, mas por vezes pode resultar nas supracitadas hangovers, ou numa noite inesquecível ou absolutamente imemorável, dependendo das circunstâncias. Mas ninguém se importa, pois esses são os meandros naturais pelos quais todos devem percorrer em busca de diversão de qualidade. É claro que muitos não aceitam esse ludismo amoral, mas é aí que reside grande parte da formosura desse ritual fraternal. Regras são feitas para serem quebradas, do contrário ainda estaríamos morando em cavernas e comendo carne crua. Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
Final feliz
Muito mais complexo do que arranjar uma namorada é arranjar a namorada certa. Sou uma pessoa que se apaixona facilmente, mas perco o interesse com a mesma facilidade, conforme vou conhecendo os defeitos das mulheres e vou revelando os meus. O encanto se perde num piscar de olhos. Já encontrei algumas garotas que me entusiasmaram a ponto de me fazer acreditar que finalmente eu havia encontrado a mulher da minha vida. Pena que todas elas não aceitaram esse “fascinante” destino, caso contrário eu não estaria aqui lamentando ou tentando descobrir as razões para a minha solteirice. Mas se o destino é resultante de causas independentes de nossa vontade, uma sucessão inevitável de acontecimentos provocados ou desconhecidos, então como elas conseguiram optar por não serem as mulheres da minha vida?! Só me resta crer que eu estava redondamente enganado, que não era o destino delas compartilhar suas vidas comigo. É triste pensar que todas essas tentativas foram em vão e que muitas outras também serão. Chego a crer que o meu destino é ser um solteirão que vive pulando de galho em galho à procura de uma nova relação passageira, que futuramente irá se converter em menosprezo e aversão – infelizmente, devo dizer, para que não pensem que sou aproveitador ou insensível. Mas se tenho consciência disso – se é que alguém pode ter consciência do próprio destino –, então por que insisto em buscar uma relação ideal e feliz, já que chego quase a assumir a impossibilidade disso? Essa é a função dessas elucubrações, tentar achar respostas plausíveis para um problema de ordem pouco racional, como é o amor. Estarei sujeito a análises errôneas e interpretações equivocadas, porém prefiro me manter nessa árdua tarefa por conta e risco em prol da minha sanidade mental. Ou o pouco que restou dela.
O que um homem busca em uma mulher? Se ela for desconhecida, então a resposta é fácil e óbvia: sexo. Pelo menos inicialmente, já que ele desconhece suas demais características e foi atraído por sua beleza num primeiro contato visual. Após isso, as virtudes da pessoa irão conquistar o sujeito, que fica apaixonado feito bobo, passa a pensar apenas nela para depois começar a fazer planos alucinados e questionáveis. Isso é normal, inclusive para mim. Mas não completamente, pois dentro de algumas semanas a empolgação toda vai sumindo, dando espaço a decepções, frustrações e discordâncias, que em pouco tempo tornam-se uma incontrolável ojeriza que leva ao afastamento da até então simpática mulher. E aquela que poderia tornar-se minha namorada passa a ser alguém que tento evitar a todo custo. Nem é necessário dizer que muitas inimizades surgiram em decorrência disso. Ainda bem que sou discreto e vou me afastando aos poucos, quando consigo, para depois assumir toda a culpa pela impraticabilidade da recém desatada relação que mal se iniciara. Eis que surgem as velhas desculpas: “Não estou preparado para namorar”, “Não quero me envolver no momento”, “Você é ótima. O problema é comigo”, “Eu criei uma barreira dentro de mim”, “Sou uma pessoa difícil de se conviver. Você não seria feliz”, e por aí vai. O pior é não saber ao certo se essas desculpas são verídicas ou não, pois é difícil entender qual é a verdadeira razão para o repentino desinteresse que surge avassalador sem deixar maiores opções. Sendo assim, não me considero um mentiroso, já que não estou tentando encobrir uma verdade, pois nem sei ao certo qual é essa maldita verdade. Simplesmente me sinto intensamente atraído por alguém, fico imaginando como seria maravilhoso tê-la em meus braços, e quando isso ocorre, vivo dias maravilhosos de paixão adolescente, empolgado e contente com a novidade. Chego até a achar que está se tornando um amor arrebatador. Pura ilusão! Em pouco tempo as brincadeirinhas já não têm mais graça, os beijos e abraços já não são tão prazerosos, a companhia não é tão relevante, os passeios não empolgam mais e, para meu desespero, o sexo torna-se quase um estorvo. Esse é o píncaro do constrangimento, já que poucas coisas podem ser ditas para o conforto da mulher em questão. Algumas até apelam, dizendo que não gosto de sexo ou que sou gay. Isso é uma injustiça, já que sou absolutamente apaixonado pelas mulheres. Faço de tudo para vê-las felizes, procuro ser compreensível, carinhoso e companheiro. Eu as respeito acima de tudo, sem quaisquer tipos de preconceitos machistas. Pena que minha obsessão em encontrar a garota perfeita esteja tão arraigada dentro de mim. Todo mundo me vem com o velho “ninguém é perfeito”. Sei muito bem disso, e sou um exemplo ambulante, já que tenho defeitos saindo pelas orelhas. Mas o que posso fazer se, de uma hora para outra, tudo parece se tornar desinteressante, desestimulante e contestável em minhas novas relações? Que culpa tenho se sou racional demais e minha inteligência emocional não atinge níveis estratosféricos?
Não! Não quero assumir que serei solitário para sempre, ou que, no máximo, terei que dividir minha cama com mulheres que irei encontrar esporadicamente. Mulheres essas que, em sua grande maioria, estão desiludidas como eu e se interessam apenas por relações casuais, onde o sexo é o mais importante. Eu realmente sinto a necessidade de compartilhar minha vida, de levar uma típica vida de casal. Claro, desde que eu possa sair com meus amigos vez ou outra para umas cervejas. Ou melhor, vez em sempre, pois não gosto de ninguém me controlando. Nunca aceitei nem que os meus pais dissessem o que devo ou não fazer... Minha individualidade e liberdade estão acima de tudo! E é claro que a individualidade dela será respeita da mesma forma. Mas eu não consigo suportar aquelas chatices costumeiras dos namoros, como ciúmes, cobranças, carências e, principalmente, ter que dar satisfações a todo momento. Aliás, existem muitas coisas extremamente irritantes. Quer algo mais insuportável do que a sua namorada ter ciúmes de algum amigo seu pelo fato de vocês se conhecerem há muito anos e saírem com freqüência pros botequins da vida? E almoço de domingo na casa da sogra? Fora a ceia de Ano Novo na casa da família dela enquanto você poderia estar bebendo todas na festança que está rolando na casa dos amigos. AQuinta-feira, 29 de Maio de 2008
A simbologia divina
Poucos sabem o real significado da Páscoa, que celebra a ressurreição DELE (optamos por grafar as palavras relacionadas a DEUS com todas as letras maiúsculas, ao invés apenas da primeira, em sinal de respeito e demonstração de amor pleno e incondicional), data religiosa simbolizada pela figura do fofinho roedor coelho.Há uma mensagem subliminar na própria figura do coelho, pois ELÃO (pronome no aumentativo para melhor caracterizar a grandiosidade de DEUS) disse: "Crescei e multiplicai-vos". O coelho é um animal que se reproduz rapidamente, por isso ele é utilizado como símbolo da Páscoa, que celebra a renovação. Portanto devemos nos renovar fazendo muito sexo. Só que, como somos espertos, graças à inteligência que ELÃO nos deus, criamos a camisinha e outros métodos contraceptivos para que possamos praticar a procriação sem que procriemos de verdade. Assim podemos obter prazer sem superpovoar o planeta – apesar que isso não tem dado lá muito certo, mas poderia ser pior. Vejam aí o brilhantismo da inteligência humana, que se adapta às suas necessidades. Evolução?! Talvez... Reflitamos a respeito – e aumentar as despesas familiares com fraldas, enxoval de bebê, educação, roupas, alimentação, dinheiro pro rolê, etc. E é por isso que são dados ovos de chocolate na páscoa, já que o chocolate simboliza o sexo, pois todos sabemos – ou deveríamos saber, já que o mundo todo, ou quase, aprecia tal guloseima (ver anexo) – que as reações químicas provocadas no nosso organismo ao comermos chocolate são semelhantes às que sentimos quando fornicamos. E o ovo simboliza tanto os testículos, por causa do seu formato, quanto a maternidade, já que abrimos o ovo e de lá vem uma surpresa.
Até hoje as pessoas estão confusas pensando no porquê do coelho, que não é um animal ovíparo, carregar uma cesta cheia de ovos, e de chocolate, ainda por cima. Tal questionamento é inevitável: "Putaquelamerda! Mas coelhos não botam ovos! Muito menos de chocolate!" Tolos! ELÃO os enviará para o inferno por tamanha ignorância! Aliás, por que o inferno é quente? Para que não seja possível comer ovos de chocolate, pois eles derretem e perdem a forma de ovo. E, para piorar, torna-se impossível comer o chocolate, que derrete facilmente, simbolizando uma impossibilidade de fazer sexo, grande prazer da vida humana. Portanto o sexo é impraticável no inferno e difundido no céu (lembre-se do preceito citado no 2.º parágrafo).ELÃO não dá ponto sem nó!
Dragão-de-komodo
8 horas da manhã de uma quinta-feira. Toca o maldito telefone! Que merda eu tinha na cabeça quando comprei essa joça?! É da agência de empregos, me convocando para uma entrevista dentro de uma hora. Ando absolutamente sem grana, por isso preciso ir para esse martirizante processo de seleção empregatícia mesmo que minha cabeça esteja quase me incapacitando a arrastar minha bunda até o banheiro para escovar os dentes, já que a noite de ontem foi pesada. É, extrapolei um pouquinho os limites. Saímos para tomar algumas cervejas, mas o “algumas” se transformou em um monstro alucinado, que se metamorfoseou em uma ressaca incontrolável e nada estimulante. O pior é que nem tenho mais a coragem de dizer que nunca mais irei beber, pois sei que isso seria uma mentira daquelas bem sem-vergonha.
Dentes escovados, micro banho tomado, roupa trocada. Aliás, escovar os dentes nessas horas é absolutamente essencial e vital, pois o gosto que fica na boca é tão pútrido e amargo que chego a me sentir um dragão-de-komodo; acho que se eu mordesse minha própria língua morreria por infecção generalizada. Vou à tal agência para ver no que dá. Tenho que ir a pé, pois meu senso de responsabilidade ímpar fez com que eu gastasse todo o dinheiro com bebidas ontem, portanto não tenho um tostão para pegar um ônibus. Meu corpo implora ensandecidamente para que eu retorne à cama, mas esse mesmo corpo pouco provido de qualidades também irá implorar por alimentos dentro em breve, e minha despensa não anda por empolgar olhares famintos. A geladeira, então, parece uma região dos confins da Sibéria, com gelo por todos os lados e nada mais. Apenas alguns vegetais em estágio avançado de putrefação, um tubo de ketchup quase vazio, uma garrafa d’água completamente vazia – para o desespero da minha ressaca devastadora – e uma caixa oitavada com uns pedaços de pizza que eu nem tive coragem de abrir para ver como estavam. O cheiro nauseabundo empesteou a casa. Era o momento propício para sair correndo em jejum.
Após uma caminhada de meia hora, que normalmente eu faria em uns 15 ou 20 minutos se não estivesse tão deteriorado, chego à agência de empregos. Minha cabeça dói, meus olhos doem, meu estômago dói, estou zonzo e minha boca está seca, fora o bafo monstruoso de álcool e tabaco. Entro tentando me manter aprumado com a camisa amassada que não tive tempo de passar. Levo a mão à boca para tentar disfarçar o bafo asqueroso e pergunto à atendente onde tem água. Bebo diversos copos e, então, vou ao que interessa. Preencho algumas fichas abarrotadas de perguntas imbecis e mal consigo me concentrar. Pego meus documentos para colar as respostas, pois meu judiado cérebro está incapacitado de lembrar de tantos números. Preencho tudo com a maior má vontade do universo e entrego a ficha à moça. Ele é lindinha e meiga, mas não consigo esboçar qualquer reação de simpatia. Sou encaminhado à outra sala para uma entrevista. Entro sozinho, já que estou atrasado. Um sujeitinho pedante e enfadonho me faz algumas perguntas e parece perceber que não estou nos meus melhores dias. Ele diz que estou dispensado e que serei comunicado caso eu seja convocado para a próxima etapa, coisa que obviamente não irá acontecer, pois minha entrevista foi um fracasso constrangedor. O pouco que resta do meu organismo urge pela minha cama.
À tarde, ao acordar, a ressaca está menos intensa, mas a fome está avassaladora. Vou à padaria e peço para o seu Toninho marcar quatro pães, duzentos gramas de mortadela e uma tubaína. O restinho do ketchup foi suficiente para apenas um dos pães. Não é um manjar dos deuses, mas ao menos consegui comer sem vomitar. Ligo a tevê. Só tem merda! O que fazer numa sexta-feira à tarde sem nenhum centavo na carteira e com uma puta ressaca? O óbvio: dormir.
Acordo no breu da noite, que se iniciara há pouco mais de uma hora. Ligo a luz e penso: “Puta merda, como vou fazer pra pagar a conta de luz?”. Deixo pra pensar nisso depois. A dor de cabeça ainda permanece, apesar de já não ser tão intensa. Mas a sede é grande. Tomo água da pia do banheiro enquanto lavo o rosto numa tentativa vã de me recompor. Mais um pão com mortadela, o último que sobrou. Nesse instante ocorre uma revolução em meu estômago. Corro para o banheiro e quase viro do avesso. Suando frio, fico por cerca de uma hora sentado no trono, não como um rei, mas como um demônio horroroso em meio ao fedor e à imundície. Outro banho se faz absolutamente necessário. O telefone toca, saio correndo todo molhado pra atender. Luciano me chamando pra tomar umas cervejas, “Afinal, hoje é sexta-feira!”, ele argumenta. Alego não ter dinheiro, mas isso não o convence. Seu poder de persuasão é elevado e logo estamos no boteco. Dúzias de cervejas, garotas, conversas acaloradas, porções de amendoim e milhares de cigarros. Outro boteco. A mesma história: cervejas, garotas, conversas, amendoins, cigarros...
8 horas da manhã. A campainha toca. Meu cérebro está derretendo e mal consigo abrir os olhos. É a dona Zuleica cobrando o aluguel atrasado. Será que se eu mordê-la no pescoço ela morre de infecção generalizada?
Dentes escovados, micro banho tomado, roupa trocada. Aliás, escovar os dentes nessas horas é absolutamente essencial e vital, pois o gosto que fica na boca é tão pútrido e amargo que chego a me sentir um dragão-de-komodo; acho que se eu mordesse minha própria língua morreria por infecção generalizada. Vou à tal agência para ver no que dá. Tenho que ir a pé, pois meu senso de responsabilidade ímpar fez com que eu gastasse todo o dinheiro com bebidas ontem, portanto não tenho um tostão para pegar um ônibus. Meu corpo implora ensandecidamente para que eu retorne à cama, mas esse mesmo corpo pouco provido de qualidades também irá implorar por alimentos dentro em breve, e minha despensa não anda por empolgar olhares famintos. A geladeira, então, parece uma região dos confins da Sibéria, com gelo por todos os lados e nada mais. Apenas alguns vegetais em estágio avançado de putrefação, um tubo de ketchup quase vazio, uma garrafa d’água completamente vazia – para o desespero da minha ressaca devastadora – e uma caixa oitavada com uns pedaços de pizza que eu nem tive coragem de abrir para ver como estavam. O cheiro nauseabundo empesteou a casa. Era o momento propício para sair correndo em jejum.
Após uma caminhada de meia hora, que normalmente eu faria em uns 15 ou 20 minutos se não estivesse tão deteriorado, chego à agência de empregos. Minha cabeça dói, meus olhos doem, meu estômago dói, estou zonzo e minha boca está seca, fora o bafo monstruoso de álcool e tabaco. Entro tentando me manter aprumado com a camisa amassada que não tive tempo de passar. Levo a mão à boca para tentar disfarçar o bafo asqueroso e pergunto à atendente onde tem água. Bebo diversos copos e, então, vou ao que interessa. Preencho algumas fichas abarrotadas de perguntas imbecis e mal consigo me concentrar. Pego meus documentos para colar as respostas, pois meu judiado cérebro está incapacitado de lembrar de tantos números. Preencho tudo com a maior má vontade do universo e entrego a ficha à moça. Ele é lindinha e meiga, mas não consigo esboçar qualquer reação de simpatia. Sou encaminhado à outra sala para uma entrevista. Entro sozinho, já que estou atrasado. Um sujeitinho pedante e enfadonho me faz algumas perguntas e parece perceber que não estou nos meus melhores dias. Ele diz que estou dispensado e que serei comunicado caso eu seja convocado para a próxima etapa, coisa que obviamente não irá acontecer, pois minha entrevista foi um fracasso constrangedor. O pouco que resta do meu organismo urge pela minha cama.
À tarde, ao acordar, a ressaca está menos intensa, mas a fome está avassaladora. Vou à padaria e peço para o seu Toninho marcar quatro pães, duzentos gramas de mortadela e uma tubaína. O restinho do ketchup foi suficiente para apenas um dos pães. Não é um manjar dos deuses, mas ao menos consegui comer sem vomitar. Ligo a tevê. Só tem merda! O que fazer numa sexta-feira à tarde sem nenhum centavo na carteira e com uma puta ressaca? O óbvio: dormir.
Acordo no breu da noite, que se iniciara há pouco mais de uma hora. Ligo a luz e penso: “Puta merda, como vou fazer pra pagar a conta de luz?”. Deixo pra pensar nisso depois. A dor de cabeça ainda permanece, apesar de já não ser tão intensa. Mas a sede é grande. Tomo água da pia do banheiro enquanto lavo o rosto numa tentativa vã de me recompor. Mais um pão com mortadela, o último que sobrou. Nesse instante ocorre uma revolução em meu estômago. Corro para o banheiro e quase viro do avesso. Suando frio, fico por cerca de uma hora sentado no trono, não como um rei, mas como um demônio horroroso em meio ao fedor e à imundície. Outro banho se faz absolutamente necessário. O telefone toca, saio correndo todo molhado pra atender. Luciano me chamando pra tomar umas cervejas, “Afinal, hoje é sexta-feira!”, ele argumenta. Alego não ter dinheiro, mas isso não o convence. Seu poder de persuasão é elevado e logo estamos no boteco. Dúzias de cervejas, garotas, conversas acaloradas, porções de amendoim e milhares de cigarros. Outro boteco. A mesma história: cervejas, garotas, conversas, amendoins, cigarros...
8 horas da manhã. A campainha toca. Meu cérebro está derretendo e mal consigo abrir os olhos. É a dona Zuleica cobrando o aluguel atrasado. Será que se eu mordê-la no pescoço ela morre de infecção generalizada?

Dor compartilhada com os amigos que desconheço
Alguém para conversar? Não! Simplesmente, NÃO!
Uma negação desesperadora que me causa a mais angustiante dor.
Senão este copo de bebida, o que seria de mim?
Pouco mais do que um trapo jogado em um canto...
Um rato perdido em um esgoto escuro e imundo...
Ou seja, pouco além daquilo do que sou.
Um pastel murcho na feira da manhã seguinte,
A vadia ébria da noite passada,
O vômito jogado na privada esquecido pela ressaca.
Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?
Sou tão incerto quanto posso supor,
Porém tão correto quanto imagino ser.
Minha “alma” urge por uma razão
E meu desatino se torna a solução.
Mais um copo, e prometo encontrar a resposta.
Mas lembre-se: promessas são dívidas!
E dívidas nem sempre são pagas!
Pois é, meu amigo, você foi enganado!
Porém, há uma problema: eu também fui!
Segure em minhas mãos e vamos caminhar.
Mas não lhe prometo momentos gloriosos.
Pois só posso lhe proporcionar,
Toda a infinita segurança que não possuo.
O meu império foi construído em bases fracas,
A areia era grossa demais, e as pedras, muito ralas...
Alguma coisa faltava. Porém, eu não sabia.
Meus vizinhos avisaram. Eu não ouvi.
Pobre de mim.
Mais um verso que segue doloroso
Mais uma linha que surge como um martírio.
Até quando irei postergar a dor?
Palavras difíceis que, ingenuamente, tentam distorcer
Tudo aquilo que enxergo como sofrimento.
Os amigos que não conheci não diriam isso.
Mas eles bem saberiam o que dizer.
Afinal, eles são quem são.
E somente a eles é a quem eu dedico esses versos.
Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?
Uma negação desesperadora que me causa a mais angustiante dor.
Senão este copo de bebida, o que seria de mim?
Pouco mais do que um trapo jogado em um canto...
Um rato perdido em um esgoto escuro e imundo...
Ou seja, pouco além daquilo do que sou.
Um pastel murcho na feira da manhã seguinte,
A vadia ébria da noite passada,
O vômito jogado na privada esquecido pela ressaca.
Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?
Sou tão incerto quanto posso supor,Porém tão correto quanto imagino ser.
Minha “alma” urge por uma razão
E meu desatino se torna a solução.
Mais um copo, e prometo encontrar a resposta.
Mas lembre-se: promessas são dívidas!
E dívidas nem sempre são pagas!
Pois é, meu amigo, você foi enganado!
Porém, há uma problema: eu também fui!
Segure em minhas mãos e vamos caminhar.
Mas não lhe prometo momentos gloriosos.
Pois só posso lhe proporcionar,
Toda a infinita segurança que não possuo.
O meu império foi construído em bases fracas,
A areia era grossa demais, e as pedras, muito ralas...
Alguma coisa faltava. Porém, eu não sabia.
Meus vizinhos avisaram. Eu não ouvi.
Pobre de mim.
Mais uma linha que surge como um martírio.
Até quando irei postergar a dor?
Palavras difíceis que, ingenuamente, tentam distorcer
Tudo aquilo que enxergo como sofrimento.
Os amigos que não conheci não diriam isso.
Mas eles bem saberiam o que dizer.
Afinal, eles são quem são.
E somente a eles é a quem eu dedico esses versos.
Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?
Os sabores das lembranças
Em minha adolescência, como a maioria das garotas, eu tinha sonhos: casar, ter filhos, ser bem sucedida e, principalmente, aguardava ansiosa pelo grande encontro com meu príncipe encantando e pela tão esperada primeira vez. Confesso que meus almejos não eram nada criativos e não passavam de ideais pequeno-burgueses juvenis. Ora, mas eu não passava de uma adolescente comum de classe média.
O casamento não aconteceu, os filhos não vieram, o conceito de vida bem sucedida já é bem relativo para mim hoje em dia e os príncipes e vagabundos encantados surgiram tão rápido quanto sumiram do meu caminho. Alguns até eram bons rapazes, mas eu custei a enxergar isso e hoje eles levam suas vidas fora do meu alcance. Talvez tenha sido excesso de autodefesa. Talvez... De qualquer forma, eu acredito que tenha sido melhor dessa forma. Ao menos para eles...
É incrível como algumas passagens de nossas vidas podem influenciar pelo resto de nossa história. Parece que o gosto amargo nunca sai da boca; as tristes lembranças nunca vão embora; a ferida nunca se fecha. O câncer nunca morre! No entanto, as doces lembranças vão se apagando, se apagando, até que elas deixam de ser tão doces ou até que deixam de ser lembranças. Já não me lembro mais do sabor do algodão-doce que eu comia nos parques de diversão, não me lembro da sensação do vento batendo no rosto quando eu andava de patins no parque, não me lembro do nome de nenhuma colega ou professora da escola e não me lembro de como era a nossa casa. Simplesmente não me lembro.
Mas eu me lembro perfeitamente da minha primeira vez. Lembro-me como se tivesse sido ontem, como se tivesse ocorrido há alguns minutos. E também me lembro do vazio interminável que senti logo em seguida. Engraçado, me lembro do vazio, mas não me recordo de muitas coisas concretas. De concreto, para mim, só existem duas sensações: ódio e dor.
A primeira vez não teve nada de cor-de-rosa, não foi romântica e nem de longe foi como eu esperava que fosse. Mas certamente foi inesquecível. Amargamente inesquecível. Nunca vou me esquecer daquela barba nojenta roçando o meu pescoço, o bafo pungente de uísque e aquelas ameaças que, por vezes, vinham em tom consolativo. Tais memórias custaram a deixar de me perseguir incessantemente, mas frequentemente retornam de maneira aterradora.
Hoje eu não tenho mais sonhos. Porém, o maior deles eu realizei. Espero que você esteja queimando no inferno, papai! Inegavelmente isso me deixa mais feliz e tranqüila.
O casamento não aconteceu, os filhos não vieram, o conceito de vida bem sucedida já é bem relativo para mim hoje em dia e os príncipes e vagabundos encantados surgiram tão rápido quanto sumiram do meu caminho. Alguns até eram bons rapazes, mas eu custei a enxergar isso e hoje eles levam suas vidas fora do meu alcance. Talvez tenha sido excesso de autodefesa. Talvez... De qualquer forma, eu acredito que tenha sido melhor dessa forma. Ao menos para eles...
É incrível como algumas passagens de nossas vidas podem influenciar pelo resto de nossa história. Parece que o gosto amargo nunca sai da boca; as tristes lembranças nunca vão embora; a ferida nunca se fecha. O câncer nunca morre! No entanto, as doces lembranças vão se apagando, se apagando, até que elas deixam de ser tão doces ou até que deixam de ser lembranças. Já não me lembro mais do sabor do algodão-doce que eu comia nos parques de diversão, não me lembro da sensação do vento batendo no rosto quando eu andava de patins no parque, não me lembro do nome de nenhuma colega ou professora da escola e não me lembro de como era a nossa casa. Simplesmente não me lembro.
Mas eu me lembro perfeitamente da minha primeira vez. Lembro-me como se tivesse sido ontem, como se tivesse ocorrido há alguns minutos. E também me lembro do vazio interminável que senti logo em seguida. Engraçado, me lembro do vazio, mas não me recordo de muitas coisas concretas. De concreto, para mim, só existem duas sensações: ódio e dor.
A primeira vez não teve nada de cor-de-rosa, não foi romântica e nem de longe foi como eu esperava que fosse. Mas certamente foi inesquecível. Amargamente inesquecível. Nunca vou me esquecer daquela barba nojenta roçando o meu pescoço, o bafo pungente de uísque e aquelas ameaças que, por vezes, vinham em tom consolativo. Tais memórias custaram a deixar de me perseguir incessantemente, mas frequentemente retornam de maneira aterradora.Hoje eu não tenho mais sonhos. Porém, o maior deles eu realizei. Espero que você esteja queimando no inferno, papai! Inegavelmente isso me deixa mais feliz e tranqüila.
A tal da sensibilidade
Onze e meia da manhã em um quarto numa pequena casa do subúrbio. Um casal como outro qualquer que acabara de acordar.
― Porra, Augusto. Você é grosso pra caralho!
― Ué, por quê?
― Isso é jeito de falar com a sua mulher: “amor, vamos dar uma trepada”?
― Há dez anos eu falo assim contigo e você nunca reclamou. Por que toda essa indignação agora?
― Porque eu cansei desse seu jeito grosseiro. Vem para cima de mim fedendo álcool e me tratando como se eu fosse uma vadia barata qualquer.
― Vadia barata, não. Eu disse “amor” antes de lhe fazer o convite. Além do mais, você não é nenhuma virgem abstêmia.
Clarice se pôs a chorar.
― Querida, por que você está chorando? Tudo isso porque eu lhe convidei para uma fodinha?
― Olha, se eu soubesse que você iria se tornar um ogro insensível, eu nunca teria levado essa relação adiante.
― Você me conheceu em um show do Discharge. Você deveria saber que eu não seria nenhum cavalheiro galanteador.
― Eu não estou pedindo para você se tornar um Werther ou um Harry Haller, peço apenas para que você seja mais romântico, mais sensível. Demonstrar um pouquinho de carinho pela mulher que você diz amar não seria nada constrangedor.
― Você sabe muito bem que eu te amo, só que o nosso amor não é hollywoodiano, é Almodóvar. Não é Romeu e Julieta, é Sid e Nancy. Não é Afrodite e Eros, é Dioniso e sátiros. Não é pênis e vagina, é caralho e xoxota.
― Acontece que eu não quero mais ser tratada como uma prostituta. Quantas vezes você me trouxe flores? Nenhuma! Qual foi a última vez que você me trouxe um presente? Eu nem sequer me lembro. Qual foi a última vez que saímos para jantar juntos? A última vez foi no aniversário do meu pai há uns seis anos e você nem sequer tocou na sua carteira. Depois disso foram apenas lanches gordurosos em lanchonetes imundas.
Clarice levantou-se da cama, trocou de roupas e disse:
― Quer saber? Vou sair.
― Aonde você vai?
― Vou sair para comer algo decente com as minhas amigas. Pelo menos eu sei que delas eu posso esperar um tratamento mais respeitoso. Ligue para o Artur e saia para encher a cara com ele mais uma vez. É só isso o que você sabe fazer mesmo.
Ela saiu furiosa. Augusto ouviu o bater da porta. Pegou o telefone e ligou para o seu amigo.
― Oi.
― Artur?
― Fala, Gutão!
― Cara, a Clarice tá puta comigo.
― Por quê?
― Ela disse que eu sou insensível.
― Nossa, quanta perspicácia! Eu sempre achei que a Clarice uma mulher muito inteligente, mas nesse caso ela demorou um pouco a entender as coisas.
― Vá se foder! O problema é que ela saiu realmente brava comigo daqui. E o pior é que, só agora, eu me lembrei que hoje faz dez anos que estamos juntos.
― Cara, que saudades daquele show do Discharge. Aqueles, sim, eram bons tempos.
― Isso é verdade. Não trabalhávamos, não fazíamos merda nenhuma a não ser beber, tocar, editar uns fanzines e badernar pelas ruas.
― Bom, tirando os fanzines e os ensaios, pouca coisa mudou.
― Isso é. Mas não vamos desviar do assunto. Eu estou com problemas. Cara, o que é que eu faço?
― Comece me contando direito qual é o problema.
― Ela disse que eu preciso ser mais carinhoso, mais sensível.
― Que merda! Por que você não diz para ela ir procurar um babaca em um show do Belle and Sebastian?
― Porque eu a amo e não desejaria mal nenhum a ela.
Artur riu e disse:
― Cara, então dê uma boa trepada com ela que tudo se resolve.
― A maldita discussão começou quando eu a convidei para isso.
― Então você não deve estar fazendo o serviço direito, meu caro.
― Não é isso. É que ela disse que eu sou muito grosso.
― Porra! Então passe um lubrificante. Você deve estar machucando a pobrezinha.
― Não é isso, seu idiota. Ela disse que eu sou grosso no sentido de estúpido, entendeu?
― Ah, tá. Então comece a ler uns livros do Shakespeare, ouça bastante Legião Urbana e assista todos os episódios de O. C. - Um Estranho no Paraíso. Isso é um curso intensivo de sensibilidade. Vai dar certo.
― Mas isso só funciona a longo prazo. Eu preciso arrumar um jeito de acalmar os ânimos de imediato.
― Cara, mulher nenhuma resiste a um presente.
― Eu cheguei a pensar nisso, mas eu não faço nem idéia do que comprar.
― Mulheres gostam de roupas, perfumes, jóias... Essas coisas.
― Eu não tenho dinheiro para comprar jóias e não tenho competência para comprar um perfume ou uma roupa que possa realmente agradá-la. Eu corro o risco de só piorar o que já está fodido.
― Então use um pouco de bom senso. Dê uma volta em algumas lojas e compre algo que você acha que possa realmente deixá-la contente.
Augusto terminou a conversa. Pôs uma roupa e foi ao centro da cidade procurar algo que pudesse melhorar sua situação com Clarice, demonstrando carinho e a tal da sensibilidade. Após entrar em algumas lojas, comprou o bendito presente e foi para casa. Ao chegar, Clarice estava deitada no sofá lendo um livro de poesias de Pablo Neruda.
― Minha querida, eu pensei bem em tudo o que você disse e resolvi mudar. Você realmente merece um tratamento mais digno, merece mais atenção. Para demonstrar isso, trouxe-lhe um pequeno presente. E não pense que eu me esqueci do nosso aniversário de dez anos de namoro. Tome aqui.
Augusto lhe entregou uma caixa retangular. Clarice abriu.
― Augusto!― Gostou, amor? É uma autêntica José Cuervo! Vamos tomar umas doses e ir para a cama?
― Porra, Augusto. Você é grosso pra caralho!
― Ué, por quê?
― Isso é jeito de falar com a sua mulher: “amor, vamos dar uma trepada”?
― Há dez anos eu falo assim contigo e você nunca reclamou. Por que toda essa indignação agora?
― Porque eu cansei desse seu jeito grosseiro. Vem para cima de mim fedendo álcool e me tratando como se eu fosse uma vadia barata qualquer.
― Vadia barata, não. Eu disse “amor” antes de lhe fazer o convite. Além do mais, você não é nenhuma virgem abstêmia.
Clarice se pôs a chorar.
― Querida, por que você está chorando? Tudo isso porque eu lhe convidei para uma fodinha?
― Olha, se eu soubesse que você iria se tornar um ogro insensível, eu nunca teria levado essa relação adiante.
― Você me conheceu em um show do Discharge. Você deveria saber que eu não seria nenhum cavalheiro galanteador.― Eu não estou pedindo para você se tornar um Werther ou um Harry Haller, peço apenas para que você seja mais romântico, mais sensível. Demonstrar um pouquinho de carinho pela mulher que você diz amar não seria nada constrangedor.
― Você sabe muito bem que eu te amo, só que o nosso amor não é hollywoodiano, é Almodóvar. Não é Romeu e Julieta, é Sid e Nancy. Não é Afrodite e Eros, é Dioniso e sátiros. Não é pênis e vagina, é caralho e xoxota.― Acontece que eu não quero mais ser tratada como uma prostituta. Quantas vezes você me trouxe flores? Nenhuma! Qual foi a última vez que você me trouxe um presente? Eu nem sequer me lembro. Qual foi a última vez que saímos para jantar juntos? A última vez foi no aniversário do meu pai há uns seis anos e você nem sequer tocou na sua carteira. Depois disso foram apenas lanches gordurosos em lanchonetes imundas.
Clarice levantou-se da cama, trocou de roupas e disse:
― Quer saber? Vou sair.
― Aonde você vai?
― Vou sair para comer algo decente com as minhas amigas. Pelo menos eu sei que delas eu posso esperar um tratamento mais respeitoso. Ligue para o Artur e saia para encher a cara com ele mais uma vez. É só isso o que você sabe fazer mesmo.
Ela saiu furiosa. Augusto ouviu o bater da porta. Pegou o telefone e ligou para o seu amigo.
― Oi.
― Artur?
― Fala, Gutão!
― Cara, a Clarice tá puta comigo.
― Por quê?
― Ela disse que eu sou insensível.
― Nossa, quanta perspicácia! Eu sempre achei que a Clarice uma mulher muito inteligente, mas nesse caso ela demorou um pouco a entender as coisas.
― Vá se foder! O problema é que ela saiu realmente brava comigo daqui. E o pior é que, só agora, eu me lembrei que hoje faz dez anos que estamos juntos.
― Cara, que saudades daquele show do Discharge. Aqueles, sim, eram bons tempos.
― Isso é verdade. Não trabalhávamos, não fazíamos merda nenhuma a não ser beber, tocar, editar uns fanzines e badernar pelas ruas.
― Bom, tirando os fanzines e os ensaios, pouca coisa mudou.
― Isso é. Mas não vamos desviar do assunto. Eu estou com problemas. Cara, o que é que eu faço?
― Comece me contando direito qual é o problema.
― Ela disse que eu preciso ser mais carinhoso, mais sensível.
― Que merda! Por que você não diz para ela ir procurar um babaca em um show do Belle and Sebastian?
― Porque eu a amo e não desejaria mal nenhum a ela.
Artur riu e disse:
― Cara, então dê uma boa trepada com ela que tudo se resolve.
― A maldita discussão começou quando eu a convidei para isso.
― Então você não deve estar fazendo o serviço direito, meu caro.
― Não é isso. É que ela disse que eu sou muito grosso.
― Porra! Então passe um lubrificante. Você deve estar machucando a pobrezinha.
― Não é isso, seu idiota. Ela disse que eu sou grosso no sentido de estúpido, entendeu?
― Ah, tá. Então comece a ler uns livros do Shakespeare, ouça bastante Legião Urbana e assista todos os episódios de O. C. - Um Estranho no Paraíso. Isso é um curso intensivo de sensibilidade. Vai dar certo.
― Mas isso só funciona a longo prazo. Eu preciso arrumar um jeito de acalmar os ânimos de imediato.
― Cara, mulher nenhuma resiste a um presente.
― Eu cheguei a pensar nisso, mas eu não faço nem idéia do que comprar.
― Mulheres gostam de roupas, perfumes, jóias... Essas coisas.
― Eu não tenho dinheiro para comprar jóias e não tenho competência para comprar um perfume ou uma roupa que possa realmente agradá-la. Eu corro o risco de só piorar o que já está fodido.
― Então use um pouco de bom senso. Dê uma volta em algumas lojas e compre algo que você acha que possa realmente deixá-la contente.
Augusto terminou a conversa. Pôs uma roupa e foi ao centro da cidade procurar algo que pudesse melhorar sua situação com Clarice, demonstrando carinho e a tal da sensibilidade. Após entrar em algumas lojas, comprou o bendito presente e foi para casa. Ao chegar, Clarice estava deitada no sofá lendo um livro de poesias de Pablo Neruda.
― Minha querida, eu pensei bem em tudo o que você disse e resolvi mudar. Você realmente merece um tratamento mais digno, merece mais atenção. Para demonstrar isso, trouxe-lhe um pequeno presente. E não pense que eu me esqueci do nosso aniversário de dez anos de namoro. Tome aqui.
Augusto lhe entregou uma caixa retangular. Clarice abriu.
― Augusto!― Gostou, amor? É uma autêntica José Cuervo! Vamos tomar umas doses e ir para a cama?
Pelo expurgo da dor
A maldição de ter que viver a cada dia
Supera a dor da dúvida e do delírio.
A frivolidade é a carta magna do meu curso,
E Morfeu me acompanha no devaneio
Precedido pela ressaca apaziguadora.
Martírio desatinado e vagaroso
Que posterga o labor da velha soturna.
Ela se regozija com o meu desalento,
Enquanto o Sábio ri sarcasticamente
Da minha rota camisa-de-força.
Os Cisnes trazem de volta o desespero,
Seguindo seu curso em um lago de sangue.
Pálidos espectros dançam ao meu redor,
Rindo e bradando a maldita canção.
Os velhos amigos chacais estão de volta!
Cada segundo parece urgir por outubro,
Quando todas as dores serão levadas e
Expurgadas de almas carentes e vívidas.
Momentos de plenitude que instilam vida
E volvem o sorriso aos filhos de Dioniso.
Supera a dor da dúvida e do delírio.
A frivolidade é a carta magna do meu curso,
E Morfeu me acompanha no devaneio
Precedido pela ressaca apaziguadora.
Martírio desatinado e vagaroso
Que posterga o labor da velha soturna.
Ela se regozija com o meu desalento,
Enquanto o Sábio ri sarcasticamente
Da minha rota camisa-de-força.
Os Cisnes trazem de volta o desespero,
Seguindo seu curso em um lago de sangue.
Pálidos espectros dançam ao meu redor,
Rindo e bradando a maldita canção.
Os velhos amigos chacais estão de volta!
Cada segundo parece urgir por outubro,
Quando todas as dores serão levadas e
Expurgadas de almas carentes e vívidas.
Momentos de plenitude que instilam vida
E volvem o sorriso aos filhos de Dioniso.
Os hostis de Hollywood
― Puta merda, Marcel, esse boteco está uma verdadeira merda hoje, não?
― É, eu já fui a lugares mais animados do que este. E não foram raras as vezes em que isso ocorreu.
― Que tal jogarmos uma sinuquinha?
Marcel disse olhando para a mesa de bilhar:
― Ah, Pedrão, aquela mesa é pior do que a minha escrivaninha velha e fodida.
― É, tenho que concordar. E também, pela quantidade de cervejas e vodcas que tomamos até agora, mesmo que essa mesa fosse a melhor do mundo, acho que demoraríamos a madrugada toda para terminarmos a partida.
O bar estava vazio. Fugazi tocando no aparelho de som velho e sem muita potência. Havia apenas cinco pessoas no recinto: João, o dono do bar; duas mulheres cinqüentonas extremamente embriagadas falando asneiras em alto tom em um canto, daquelas que ninguém sabe de onde surgiram, que só aparecem no fim da noite e que parecem estar sempre à caça de lugares decadentes; Marcel e Pedro.
João, percebendo o desânimo em seu estabelecimento, liga a tevê para tentar – desesperadamente, diga-se – levantar o astral do ambiente. Está passando um clássico das madrugadas televisivas: Um Sonho de Liberdade.
― Cara – disse Pedro – esse filme é bom pra cacete!
Ao que Marcel comenta:
― O filme realmente é bom, mas o Morgan Freeman é o rei! Ele é o cara mais legal do mundo! Conversar com ele deve ser demais.
― Cara, o que é que você está falando?
― Meu, olha só a cara dele. Ele é o cara mais sério do mundo!
― Mentira! O cara mais sério do mundo é o Clint Eastwood.
― Sim, mas ele é antipático. O Morgan Freeman é calado, mas é uma puta cara bacana. Quando ele sorri dá vontade de passar horas conversando com o cara. Imagina você tomando altas cervejas com ele. Depois de tomar várias, ele deve sorrir com mais freqüência e mostrar todo o seu potencial.
João, aumenta o volume da tevê.
― Mas em uma briga – disse Pedro – eu preferiria mil vezes ter o Clint do lado. Mesmo velhão, eu aposto que ele seria de grande utilidade nessas horas. Só com o seu olhar fulminante ele conseguiria fazer um cara mijar nas calças.
― Bem, isso é. Mas pra conversar ele deve ser um pé no saco. Aliás, seria muita sorte se ele abrisse a boca ao menos uma vez. Já o Morgan, quando abrisse a boca, seria para dizer algo grandioso, que você levaria para o resto da vida.
― O Clint prefere agir ao invés de teorizar. Ele é o homem-que-nunca-sorri, meu amigo. Ele prefere se comunicar através de olhares hostis.
― Ah, o cacete! O cara só faz tipo. Eu aposto que ele é daqueles caras que assiste Chaves e se mija de rir.
― Mas isso é óbvio! Todo mundo se mija de rir assistindo Chaves, mesmo sabendo de cor tudo o que acontece em cada episódio.
Umas das senhoras acabadas gritou ao fundo, levantando um dos braços e quase caindo da cadeira:
― Clint e Morgan o cacete! Foda mesmo era o Charles Bronson. Aposto que ele daria um cacete fenomenal nesses dois coroas.
― Sem contar o bigodinho dele, que era um tesão – disse a outra velha ébria.
João comentou baixinho com os rapazes:
― Fodeu! Vocês despertaram os dois dragões adormecidos. Sejam fortes e vocês sobreviverão.
― Puta merda. Era só o que me faltava ter que agüentar duas mocréias bêbadas – disse Marcel.
Pedro, olhou para as duas senhoras por cima do ombro, balançou a cabeça em sinal de indignação, tomou o resto de vodca em seu copo e disse:
― O mundo está realmente perdido. Não temos mais paz nem em nosso botequim preferido. Jão, desliga essa porra de tevê antes que novos comentários surjam por parte daquelas damas, encha o meu copo com mais vodca e traga outra Brahma.
Uma das donzelas levantou e se dirigiu ao balcão onde estavam os dois rapazes.
― Meu querido, seja cortês e me dê um gole dessa sua bebida. E, garçom, você não tem nenhum CD do Raulzito aí? Essa gritaria tá enchendo o saco.
Pedro, lançou um olhar nada amistoso à mulher e disse:
― Por que você não volta pra maldita sociedade alternativa de onde você nunca deveria ter saído e me deixa tomar minha bebida sossegado?
Consternada, a senhora retrucou:
― Olha aqui, seu bostinha, eu tenho idade para ser a sua mãe!
― Pois é, só que a minha mãe deve estar na casa dela neste momento fingindo que eu não existo. Por que a senhorita não faz o mesmo?
A outra mulher, que estava sentada lá no canto, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, agarrou Marcel por trás, tascou-lhe uma úmida lambida em sua orelha cheia de cera e disse:
― Querido, que tal se nós pegássemos algumas cervas e uma garrafa de vodca e fossemos para a minha casa nos divertir?
Marcel, aceitando o picante convite, levantou-se e foi com a mulher.
Pedro, agora sem o seu amigo, dirigiu-se a outra senhora:
― Dona, sente-se aí que eu lhe pago uma dose.
― É, eu já fui a lugares mais animados do que este. E não foram raras as vezes em que isso ocorreu.
― Que tal jogarmos uma sinuquinha?
Marcel disse olhando para a mesa de bilhar:
― Ah, Pedrão, aquela mesa é pior do que a minha escrivaninha velha e fodida.
― É, tenho que concordar. E também, pela quantidade de cervejas e vodcas que tomamos até agora, mesmo que essa mesa fosse a melhor do mundo, acho que demoraríamos a madrugada toda para terminarmos a partida.
O bar estava vazio. Fugazi tocando no aparelho de som velho e sem muita potência. Havia apenas cinco pessoas no recinto: João, o dono do bar; duas mulheres cinqüentonas extremamente embriagadas falando asneiras em alto tom em um canto, daquelas que ninguém sabe de onde surgiram, que só aparecem no fim da noite e que parecem estar sempre à caça de lugares decadentes; Marcel e Pedro.João, percebendo o desânimo em seu estabelecimento, liga a tevê para tentar – desesperadamente, diga-se – levantar o astral do ambiente. Está passando um clássico das madrugadas televisivas: Um Sonho de Liberdade.
― Cara – disse Pedro – esse filme é bom pra cacete!
Ao que Marcel comenta:
― O filme realmente é bom, mas o Morgan Freeman é o rei! Ele é o cara mais legal do mundo! Conversar com ele deve ser demais.
― Cara, o que é que você está falando?
― Meu, olha só a cara dele. Ele é o cara mais sério do mundo!
― Mentira! O cara mais sério do mundo é o Clint Eastwood.― Sim, mas ele é antipático. O Morgan Freeman é calado, mas é uma puta cara bacana. Quando ele sorri dá vontade de passar horas conversando com o cara. Imagina você tomando altas cervejas com ele. Depois de tomar várias, ele deve sorrir com mais freqüência e mostrar todo o seu potencial.
João, aumenta o volume da tevê.
― Mas em uma briga – disse Pedro – eu preferiria mil vezes ter o Clint do lado. Mesmo velhão, eu aposto que ele seria de grande utilidade nessas horas. Só com o seu olhar fulminante ele conseguiria fazer um cara mijar nas calças.
― Bem, isso é. Mas pra conversar ele deve ser um pé no saco. Aliás, seria muita sorte se ele abrisse a boca ao menos uma vez. Já o Morgan, quando abrisse a boca, seria para dizer algo grandioso, que você levaria para o resto da vida.
― O Clint prefere agir ao invés de teorizar. Ele é o homem-que-nunca-sorri, meu amigo. Ele prefere se comunicar através de olhares hostis.
― Ah, o cacete! O cara só faz tipo. Eu aposto que ele é daqueles caras que assiste Chaves e se mija de rir.
― Mas isso é óbvio! Todo mundo se mija de rir assistindo Chaves, mesmo sabendo de cor tudo o que acontece em cada episódio.
Umas das senhoras acabadas gritou ao fundo, levantando um dos braços e quase caindo da cadeira:
― Clint e Morgan o cacete! Foda mesmo era o Charles Bronson. Aposto que ele daria um cacete fenomenal nesses dois coroas.
― Sem contar o bigodinho dele, que era um tesão – disse a outra velha ébria.
João comentou baixinho com os rapazes:
― Fodeu! Vocês despertaram os dois dragões adormecidos. Sejam fortes e vocês sobreviverão.
― Puta merda. Era só o que me faltava ter que agüentar duas mocréias bêbadas – disse Marcel.
Pedro, olhou para as duas senhoras por cima do ombro, balançou a cabeça em sinal de indignação, tomou o resto de vodca em seu copo e disse:
― O mundo está realmente perdido. Não temos mais paz nem em nosso botequim preferido. Jão, desliga essa porra de tevê antes que novos comentários surjam por parte daquelas damas, encha o meu copo com mais vodca e traga outra Brahma.
Uma das donzelas levantou e se dirigiu ao balcão onde estavam os dois rapazes.
― Meu querido, seja cortês e me dê um gole dessa sua bebida. E, garçom, você não tem nenhum CD do Raulzito aí? Essa gritaria tá enchendo o saco.
Pedro, lançou um olhar nada amistoso à mulher e disse:
― Por que você não volta pra maldita sociedade alternativa de onde você nunca deveria ter saído e me deixa tomar minha bebida sossegado?
Consternada, a senhora retrucou:
― Olha aqui, seu bostinha, eu tenho idade para ser a sua mãe!
― Pois é, só que a minha mãe deve estar na casa dela neste momento fingindo que eu não existo. Por que a senhorita não faz o mesmo?
A outra mulher, que estava sentada lá no canto, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, agarrou Marcel por trás, tascou-lhe uma úmida lambida em sua orelha cheia de cera e disse:
― Querido, que tal se nós pegássemos algumas cervas e uma garrafa de vodca e fossemos para a minha casa nos divertir?
Marcel, aceitando o picante convite, levantou-se e foi com a mulher.
Pedro, agora sem o seu amigo, dirigiu-se a outra senhora:
― Dona, sente-se aí que eu lhe pago uma dose.
Imperfeito soneto para uma mulher perfeita
Certa vez ouvi falar sobre a divina proporção
Que rege toda a infinita beleza da criação
A fração 1,618 é a base dessa complexa teoria
Que, para muitos, foi motivo de grande simpatia
Certa vez avistei uma garota que me causou grande emoção
De imediato fui vítima de uma enorme empolgação
Senti-me impelido a estar em sua terna companhia
A partir de então lutei por aquela que me aprazia
A linda mulher se tornou o amor da minha vida
Tornei-me inebriado de paixões e sentimentos abstersos
Pude, então, dar início a minha jubilosa sobrevida
Indigna de tamanha beleza é essa minha simples cometida
A almejada divina proporção não existe nestes versos
Porém abunda na mais bela das musas: a minha prometida
Que rege toda a infinita beleza da criação
A fração 1,618 é a base dessa complexa teoria
Que, para muitos, foi motivo de grande simpatia
Certa vez avistei uma garota que me causou grande emoção
De imediato fui vítima de uma enorme empolgação
Senti-me impelido a estar em sua terna companhia
A partir de então lutei por aquela que me aprazia
A linda mulher se tornou o amor da minha vida
Tornei-me inebriado de paixões e sentimentos abstersos
Pude, então, dar início a minha jubilosa sobrevida
Indigna de tamanha beleza é essa minha simples cometida
A almejada divina proporção não existe nestes versos
Porém abunda na mais bela das musas: a minha prometida
Outro porre
Acordei. Tossi. Muito! Meu cérebro se tornara uma geléia estragada. Minha cabeça doía. Fui ao banheiro. Meu corpo começou a se vingar de mim pelos exageros cometidos na noite passada. Expeli diversas substâncias e gases. Vomitei, peidei cuspi, mijei e fiz cocô. "Fazer cocô". Sempre achei essa expressão horrível. "Cagar" é bem menos feio. Fui me lavar. A água que escorria pelo meu corpo parecia me livrar de todas as impurezas e excessos. O maldito telefone tocou. Saí nu e molhando a casa toda. Acendi um cigarro. Atendi o telefone.
― Alô.
― Fala, Max.
― Quem está falando?
― Sou eu, porra!
― Eu quem?
― O Nestor, cacete!
― Ah. E aí, tudo certo?
― Comigo tudo bem. E contigo?
― Já estive melhor.
― Pelo jeito você extrapolou ontem.
― É, cara, ontem eu peguei pesado.
― Ah. Grande novidade. Você sempre pega pesado.
― É, mas ontem foi além da conta.
― Aprontou alguma?
― Cara, eu fui naquele show idiota com a Karen.
― A banda era ruim?
― Uma merda! Quando os caras acabaram de tocar, um DJ começou a rolar uns sons. Estava tocando The Specials. A última coisa que eu me lembro é que eu estava em cima do balcão dançando feito um idiota.
― E aí?
― Como eu disse, não me lembro o que aconteceu depois. Só sei que acordei com uma dor de cabeça violentíssima.
― E a Karen?
― Não sei. Ainda não falei com ela hoje.
― Vai sair?
― Se eu sobreviver, pode até ser.
― Bom, me liga depois.
― OK. Até mais.
Desliguei. Liguei para a Karen.
― Alô.
― Oi, Karen.
― O que você quer?
― Pelo jeito eu aprontei alguma ontem, não é?
― E vai me dizer que você não se lembra?
― Após a minha performance frenética em cima do balcão, confesso que não me lembro de mais nada.
― Olha, eu não sei se isso é desculpa sua, mas, de qualquer forma, estou de saco cheio das suas palhaçadas.
― Eu também, mas gostaria de saber pelo menos o que fiz.
― Me diga, por que você bebe tanto?
― Juro que essa foi a primeira coisa na qual pensei quando acordei.
― Meu caro, qual é o seu problema? Você se acha o dono do mundo? Acha que pode fazer o que bem entender?
― É a bebida.
― O que é que tem a bebida?
― Você perguntou qual era o meu problema.
― Então por que você não pára de beber? Ou por que, pelo menos, não diminui a dose?
― Porque isso é impossível. Seria o mesmo que lhe pedir para você parar de ler Paulo Coelho e ouvir emocore.
― Mas isso não me prejudica em nada.
― Você é que pensa.
― Escuta aqui, eu não tenho que ouvir desaforos de um bêbado inconseqüente como você. Ainda mais depois de tudo que você aprontou.
― Então ao menos me deixe saber o que fiz de tão grave!
― E, além do mais, Paulo Coelho é bem melhor do que esse lixo ébrio que você adora ler e My Chemical Romance é infinitamente superior a essa barulheira punk idiota que você tanto ama.
― O Paulo Coelho já foi bastante ligado em substância ilícitas e os emos surgiram do bom e velho punk rock.
― Meu querido, nós não estamos aqui para discutir literatura e nem música.
― E nós não estamos fazendo isso. Estamos falando de Paulo Coelho e emocore.
― Você é nojento às vezes, sabia?
― Isso porque você não me viu hoje de manhã.
― Ainda bem. Nunca mais quero vê-lo, muito menos pela manhã, pois isso significaria que passamos a noite juntos.
― Não necessariamente. Você poderia vir à minha casa logo após eu ter acabado de acordar.
― Eu trabalho de manhã, ao contrário de você. Há anos você não acorda cedo, portanto seria muito difícil vê-lo pela manhã, a não ser que tivéssemos dormido juntos.
― Você sabe muito bem que eu prefiro trabalhar durante a madrugada.
― Até quando você vai chamar essa banda e essas coisas que você escreve de trabalho?
― Eu detesto isso. É só nós dois termos uma discussãozinha à toa que você começa a desmerecer as minhas poesias e a minha música.
― Em primeiro lugar, nós não estamos tendo um simples discussãozinha à toa. Em segundo lugar, eu não chamaria aquele monte de palavrões que você escreve de poesia, tampouco chamaria aquela cacofonia desenfreada de música.
― Karen, como você é cruel!
― E como você é iludido!
― Pelo menos eu sou feliz. Não tenho que ficar agüentando desaforos de um boçal engravatado e ficar confinado dentro de um cubículo cheio de pessoas estúpidas.
― Não fale assim dos meus amigos, seu cretino. Além do mais, esse boçal a quem você se refere paga o meu salário todos os meses sem falta. E paga bem! Eu não devo agüentar desaforos de você, isso sim. E acho que nem preciso dizer que meus amigos têm muito mais os pés no chão do que você e todos os seus amigos bêbados e vagabundos juntos.
― Só porque nós bebemos mais tequila e cerveja em um dia do que vocês conseguiriam suportar em um mês?
― Como se isso fosse algo merecedor de méritos.
― Ah, eu prefiro isso a ficar gastando meu dinheiro com roupas caras e best sellers estúpidos.
― Olha, Charlie, você não tem jeito. Vá para o inferno.
Ela desligou o telefone. Na minha cara! E eu nem fiquei sabendo o que fiz. E o inferno não deve ser tão ruim, desde que tenha cerveja gelada. Bom, mas aí não seria o inferno, e, sim, o paraíso.
Peguei o telefone novamente.
― Nestor?
― Eu.― E aí, onde vamos beber hoje?
― Alô.
― Fala, Max.
― Quem está falando?
― Sou eu, porra!
― Eu quem?
― O Nestor, cacete!
― Ah. E aí, tudo certo?
― Comigo tudo bem. E contigo?
― Já estive melhor.
― Pelo jeito você extrapolou ontem.
― É, cara, ontem eu peguei pesado.
― Ah. Grande novidade. Você sempre pega pesado.
― É, mas ontem foi além da conta.
― Aprontou alguma?
― Cara, eu fui naquele show idiota com a Karen.
― A banda era ruim?
― Uma merda! Quando os caras acabaram de tocar, um DJ começou a rolar uns sons. Estava tocando The Specials. A última coisa que eu me lembro é que eu estava em cima do balcão dançando feito um idiota.― E aí?
― Como eu disse, não me lembro o que aconteceu depois. Só sei que acordei com uma dor de cabeça violentíssima.
― E a Karen?
― Não sei. Ainda não falei com ela hoje.
― Vai sair?
― Se eu sobreviver, pode até ser.
― Bom, me liga depois.
― OK. Até mais.
Desliguei. Liguei para a Karen.
― Alô.
― Oi, Karen.
― O que você quer?
― Pelo jeito eu aprontei alguma ontem, não é?
― E vai me dizer que você não se lembra?
― Após a minha performance frenética em cima do balcão, confesso que não me lembro de mais nada.
― Olha, eu não sei se isso é desculpa sua, mas, de qualquer forma, estou de saco cheio das suas palhaçadas.
― Eu também, mas gostaria de saber pelo menos o que fiz.
― Me diga, por que você bebe tanto?
― Juro que essa foi a primeira coisa na qual pensei quando acordei.
― Meu caro, qual é o seu problema? Você se acha o dono do mundo? Acha que pode fazer o que bem entender?
― É a bebida.
― O que é que tem a bebida?
― Você perguntou qual era o meu problema.
― Então por que você não pára de beber? Ou por que, pelo menos, não diminui a dose?
― Porque isso é impossível. Seria o mesmo que lhe pedir para você parar de ler Paulo Coelho e ouvir emocore.
― Mas isso não me prejudica em nada.
― Você é que pensa.
― Escuta aqui, eu não tenho que ouvir desaforos de um bêbado inconseqüente como você. Ainda mais depois de tudo que você aprontou.
― Então ao menos me deixe saber o que fiz de tão grave!
― E, além do mais, Paulo Coelho é bem melhor do que esse lixo ébrio que você adora ler e My Chemical Romance é infinitamente superior a essa barulheira punk idiota que você tanto ama.
― O Paulo Coelho já foi bastante ligado em substância ilícitas e os emos surgiram do bom e velho punk rock.― Meu querido, nós não estamos aqui para discutir literatura e nem música.
― E nós não estamos fazendo isso. Estamos falando de Paulo Coelho e emocore.
― Você é nojento às vezes, sabia?
― Isso porque você não me viu hoje de manhã.
― Ainda bem. Nunca mais quero vê-lo, muito menos pela manhã, pois isso significaria que passamos a noite juntos.
― Não necessariamente. Você poderia vir à minha casa logo após eu ter acabado de acordar.
― Eu trabalho de manhã, ao contrário de você. Há anos você não acorda cedo, portanto seria muito difícil vê-lo pela manhã, a não ser que tivéssemos dormido juntos.
― Você sabe muito bem que eu prefiro trabalhar durante a madrugada.
― Até quando você vai chamar essa banda e essas coisas que você escreve de trabalho?
― Eu detesto isso. É só nós dois termos uma discussãozinha à toa que você começa a desmerecer as minhas poesias e a minha música.
― Em primeiro lugar, nós não estamos tendo um simples discussãozinha à toa. Em segundo lugar, eu não chamaria aquele monte de palavrões que você escreve de poesia, tampouco chamaria aquela cacofonia desenfreada de música.
― Karen, como você é cruel!
― E como você é iludido!
― Pelo menos eu sou feliz. Não tenho que ficar agüentando desaforos de um boçal engravatado e ficar confinado dentro de um cubículo cheio de pessoas estúpidas.
― Não fale assim dos meus amigos, seu cretino. Além do mais, esse boçal a quem você se refere paga o meu salário todos os meses sem falta. E paga bem! Eu não devo agüentar desaforos de você, isso sim. E acho que nem preciso dizer que meus amigos têm muito mais os pés no chão do que você e todos os seus amigos bêbados e vagabundos juntos.
― Só porque nós bebemos mais tequila e cerveja em um dia do que vocês conseguiriam suportar em um mês?
― Como se isso fosse algo merecedor de méritos.
― Ah, eu prefiro isso a ficar gastando meu dinheiro com roupas caras e best sellers estúpidos.
― Olha, Charlie, você não tem jeito. Vá para o inferno.
Ela desligou o telefone. Na minha cara! E eu nem fiquei sabendo o que fiz. E o inferno não deve ser tão ruim, desde que tenha cerveja gelada. Bom, mas aí não seria o inferno, e, sim, o paraíso.
Peguei o telefone novamente.
― Nestor?
― Eu.― E aí, onde vamos beber hoje?
Alma pesada
Ontem eu não sabia ao certo quem eu era
Doravante, tornei-me figura austera
Infante até o porém, surgiu a besta-fera
Ora essa, a conseqüência foi tão sincera
Rompi meus parcos eixos no desespero
Anarquia gerada em meio ao entrevero
Incutiu-me a dor e deu vida ao exaspero
Violência arraigada no exagero
Abase coaxial deste meu esmero
Doravante, tornei-me figura austera
Infante até o porém, surgiu a besta-fera
Ora essa, a conseqüência foi tão sincera
Rompi meus parcos eixos no desespero
Anarquia gerada em meio ao entrevero
Incutiu-me a dor e deu vida ao exaspero
Violência arraigada no exagero
Abase coaxial deste meu esmero
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